O carrinho de rolimã e o trole: velocidade da luz!

Hoje conversando, no trabalho um amigo veio me dizer que quem não andou de skate ou surfou não teve infância. A primeira eu rebati de bate e pronto perguntando se eu ia surfar no açude. A segunda eu ajeitei com carinho e junto com outro amigo de sala, que também é do interior, saiu um: - Eu andava de carrinho de rolimã!
Aposto em Aids!
Eu tive um carrinho de rolimã que comprei de uns maloqueiros da Francisco Correia, mas eu fui ludibriado e o objeto tava todo lascado. Rolamento estourado. Madeira podre. Folgas. Uma tristeza. Mas eu era doido pra ter um e meu pai vivia dizendo que ia me dar e me enrolando. Quando comprei esse, não teve como ele deixar de perceber a situação (e minha mãe fez questão de que ele percebesse, mas isso é um detalhe). Ele levou o carrinho pra o depósito onde ele consertava os carros dele e praticamente refez o bicho. Voltou tinindo.

Andava muito na minha rua, principalmente nas calçadas. Vivi muitas aventuras com aquele carrinho na terra e no paralelepípedo (pois não tinha asfalto em Salgueiro nessa época), me deitava nele e sentia o vento no rosto (nos carrinhos de Salgueiro você fica sentado ou deitado, não é como em recife, que fazem um patinete e chamam de carrinho de rolimã). Acho que a maior ladeira que desci foi a da Francisco Correia isso considerando a inclinação, em extensão foi a da Inácio de Sá. Eu era muito criança e não podia me afastar muito de casa com o carrinho, minha mãe dizia que eu ia morrer, tipo naquele filme A Vila.

Em Salgueiro nunca teve uma corrida de rolimã como nos filmes americanos, e na minha rua acho que só eu usava esse meio de transporte, mais um motivo pra nenhuma corrida que não as imaginárias. Na verdade começo a pensar se eu que não perdi a fase. Em Salgueiro, mais especificamente em cada rua, existiam as fases das brincadeiras. Algumas mais cíclicas (bila, garrafão, dono da rua, breque, etc) e outras menos (só me lembrei de bafo, mas juro que tinham outras). Lembro bem que enquanto eu andava com meu carrinho via ao longe as mais velozes máquinas já engendradas por mãos adolescentes. Os troles.

Essas máquinas não tinham nenhuma relação com os trolls que assolam a internet nos dias de hoje. Os troles eram carrinhos de rolimã adaptados ao trilho do trem, que atingiam velocidades incríveis! Acho que nem todo mundo teve contato com essa maravilha da engenharia popular por sua dependência de um trilho de trem, o que não é algo comum.

Para pegar velocidade o trole não precisava de ladeira como o carrinho de rolimã, o trilho facilitava tudo. É como você rolar um pneu, não tem muito esforço, a mágica está no jeito que os rolamentos são colocados para que o equilíbrio seja mantido facilmente. Tinha até técnica para aumentar a velocidade se deitando para frente ou para trás por exemplo.

As vezes os troles que passavam na frente da casa que morava na Francisco correia eram simplesmente meios de transporte. Sempre via algumas pessoas que moravam para o lado do Alto do Curtume que usavam o caminho do trem, incluindo aí a ponte que tem perto do antigo Sítio Amazonas, como atalho para chegar ao Prado ou as proximidades da Avenida Antônio Angelim. Os caras mais "efistailes" iam de trole.
retirado de http://www.autodromodecuritiba.com.br
Um guerreiro indo para luta!
Acho que andei pouco de trole, eu não conseguia me equilibrar direito e achava bem perigoso. Ficava imaginando o trem me estraçalhando caso ele aparecesse e eu não conseguisse parar a tempo de fugir. Lembro que, como quem não quer nada, pedi para o meu pai fazer o upgrade no meu carrinho de rolimã... mas não teve conversa nem diálogo ganhei um seco: - Não.

Minha alegria acabou depois que o carrinho começou a quebrar e a madeira apodrecer, sem contar que eu sujava a casa toda de terra. Minha família não entendia que eu precisava de trilhas cada vez mais radicais e que poeira e lama estavam atreladas a isso. Aos poucos fui esquecendo meu carrinho de rolimã e a vontade de ter um trole para sair conhecendo o mundo. Voltei a usar meu breque, que é muito mais radical.

Rodolfo Nícolas vai tentar rascunhar um projeto de um carrinho de rolimã para colocar aqui (vai tentar, vai tentar...).

Um comentário:

Rafael Rocha disse...

Tinha a galera do circuito TROLE XTREME da Francisco Correia, eram os meninos mais velhos que tinham mais experiência. Eles construíam barreiras de madeira sobre os trilhos. Essas estruturas eram incendiadas e quando as chamas estavam altas algum intrépido seco do juízo transpassava as chamas como se fosse uma bala, saindo do outro lado todo torrado, eufórico e rindo por ter desafiado a morte de frente.