13: Uma rua de terror

Quando eu era um infante e corria descalço e sem camisa como bicho solto pelo meu Salgueiro, havia um lugar lendário de violência e maldade: A rua 13 de maio! Em resumo, a imagem folclórica daquele local remetia a maloqueiros inconsequentes que se organizaram em um grupo do medo.
Para me defender da violência, também me tornei violento


Naquela época, fazendo um paralelo com meu conhecimento atual, eu via Salgueiro com um cenário similar ao do filme Selvagens da Noite. Gangues juvenis que tinham seu território defendido vorazmente e que, ninguém podia adentrar nele se fosse de outro trecho. A expressão "eu tenho rua" era comum nesse tempo e demonstrava poder.

Por algum tempo a Rua 13 reinou. Lembro que ela venceu duelos contra a Francisco correia e Inácio de Sá em pouco tempo (sim, as ruas marcavam combates com local, data e hora marcada). Eu não os conhecia por nome, mas a fisionomia deles eu sabia identificar rapidamente, afinal, minha vida dependia disso.

Lembro de alguns momentos relacionados a Rua 13, ligados a mim e a pessoas ao meu redor.

No primeiro, Rafael me falou que certa vez estava vendo um jogo no módulo (uma das áreas sob domínio das ruas, principalmente quando não era período de jogos escolares), naquele último degrau, do lado que olhando para trás dá visão para a BR. Pelo lado de fora do muro tinha uma criança queimando mato seco sem nenhum motivo aparente (maloqueiros fazem coisas estranhas sem nenhum motivo aparente).

A fumaça começou a incomodar quem estava perto, que era o local onde Rafael estava abancado. Os incomodados protestaram jogando pedras no menino que estava cumprindo sua carga horária de estágio de mal-feitor. O menino tentou negociar que aquilo era atividade curricular, mas as pedras continuaram zunindo, até o menino sumir.

Na verdade o menino não sumiu, ele bateu em retirada e arrodeou o módulo e voltou com o pessoal da rua 13. Ele então começou a apontar quem o incomodava um por um, que depois tinha que pular no mato queimado ou era jogado lá de cima do módulo! Aí um dos maloqueiros seniores apontou para nosso artista preferido e perguntou: "E esse gordinho"? Aí o suor frio escorreu pela testa, passando pela bochecha gorda e agora vermelha de tensão... até o menino falar que o gordinho tinha saído de perto dos apedrejadores. Rafael já me confidenciou que nunca imagina que ser gordo seria a salvação em uma hora de tanto sofrimento.

No segundo momento, teve o dia em que o saudoso Ednaldo Doca me convidou para ir fazer uma visita a uns amigos dele. Fomos lá e era na Rua 13. Reconheci naqueles rostos agora nem tão aterrorizantes os mesmos traços que aprendi a identificar para garantir minha sobrevivência. Estava ali, no meio de latinhas de pitú, coca-cola, folhas de castanhola e gelat's, perto daqueles que já foram reis do medo (estava lá, inclusive, aquele menino que tinha o olho baixo, e dava medo não só por ser de onde era, mas por ser feio mesmo).

O terceiro momento foi rápido e rasteiro. Fiquei sabendo, já bem depois do fim dessa era belicosa, que a derrocada da Rua 13 se deu pelas mãos de Aires (punhos de machadinha), Neneu e Fred: A trinca de ouro! Estes 3 homens resolveram por um fim a insanidade daquela balburdia juvenil com suas próprias mãos. Não mataram ninguém mas apresentaram a eles um mundo de dor, sofrimento e ranger de dentes.

Existiam muitas outras ruas barra pesada nas décadas de 80 e 90 em Salgueioro, como o Curtume, Riachinho, Suvaco e Planalto, que também tocavam o terror, mas não há como negar que durante um tempo o terror mais horrendo vinha da Rua 13.

Rodolfo Nícolas estudou com Paulo Peruquinha.

7 comentários:

Anônimo disse...

ki nada... eu mesmo deu um pau em um desses ai que vc diz ter dado um basta nessas ruas perigosas.. em 1996, saindo pra recife

Mas, Cela disse...

hahahaha. Adoro suas descrições sobre Salgueiro. Isso dá praticamente um roteiro de filme. Um verdadeiro sobrevivente...

Leotets disse...

oxi, era assim mesmo, mas como Rodolfo disse, não era apenas a rua 13 - que se tornou um simbolo da época. A cidade inteira era habitada por adolescentes desajustados. Aquela época era muito barra pesada. Não conto as vezes que eu saia na briga pra me defender no auge daquilo tb. E imagino hoje, com uma visão mais madura, o quanto inclusive os pais daquela época penavam... Uma cunhada uma vez falou o quanto ela tinha notado os efeitos disso nas pessoas de uma certa faixa etária (e ela não conhecia a história ainda). Quem foi criança em Salgueiro nos anos 80 sabe do que se fala aqui.

PAULO SAMPAIO disse...

Rapaz, eu morava na bomba e cresci brincando com essa galera, eu tinha medo de tudim, mas tinha uns que amedrontavam mais que os outros e também tinha os caras de responsa, a exemplo de NEGO BOM. Tinha um gurí que era uma peste, o lendário PIRUQUINHA, esse era ruim de verdade, mas também não ficava sozinho nessa, pois tinha os caras realmente malvados, como "finado" MARQUÉ, CANGURÚ, etc. Mas com certeza foi a melhor época de Salgueiro!

PAULO SAMPAIO disse...

Rapaz, eu morava na bomba e cresci brincando com essa galera, eu tinha medo de tudim, mas tinha uns que amedrontavam mais que os outros e também tinha os caras de responsa, a exemplo de NEGO BOM. Tinha um gurí que era uma peste, o lendário PIRUQUINHA, esse era ruim de verdade, mas também não ficava sozinho nessa, pois tinha os caras realmente malvados, como "finado" MARQUÉ, CANGURÚ, etc. Mas com certeza foi a melhor época de Salgueiro!

PAULO SAMPAIO disse...

Eles mijavam nas ruas, jogavam carrapichos e cuspiam em pessoas! Tinha um Video game de Dr.Francisco em frente ao banco do Nordeste e aqueles maloqueiros ficavam cuspindo nos meninos que estavam dentro. Robson, que tomava de conta do recintro, cansava de espulsa-los de lá!

pajaraca_n disse...

Eu estudei com Paulo Peruquinha e ele não era peça boa mesmo não uhuhuhuhuhu. Mas me disseram que ele tinha se regenerado.